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Tem havido pouca coisa mais provinciana na imprensa portuguesa recentemente do que  esta obsessão com a alegada mudança de Madonna para Lisboa. Escrevem-se textos incontáveis sobre o que ela fez, onde esteve e o que comeu e o que escreveu sobre isso depois nas redes sociais. O Português enquanto inseto: irresistivelmente atraído pela luz.

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Pouca razão para ficar surpreendido há nesta história das viagens a Seattle patrocinadas pela Microsoft. Ricardo Rio nasceu em 72, Paulo Cunha em 71, Rui Pereira em 64 e João Neves, o mais velho, em 58. Estavam todos, portanto, na casa dos vinte e dos trinta na primeira metade da década de noventa e provavelmente guardam todos ainda com carinho uma camisa de flanela no baú lá de casa. O apelo sentimental de uma viagem – e para mais uma viagem com tudo pago – à maior cidade do estado de Washington não tinha como ser contrariado.

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Não pode ser coincidência que entre As Donzelas de Rochefort, de Jacques Demy, e a canção Tecnicolor, dos Mutantes, distem apenas quatro anos. No filme do francês há um cesto de laranjas e limões num balcão de café que pontua cada plano em que surge; deve ser isso, só pode ser isso, o “apanhar um comboio em Tecnicolor” que canta Arnaldo Baptista.

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Carta aberta à direção do Cinema Trindade, no Porto:

Caros senhores,

Venho por este meio manifestar o meu desagrado em relação às condições do serviço oferecido por vossas excelências, que tive oportunidade de experenciar in loco no passado sábado.

Tudo descambou muito rapidamente, e logo a partir do momento da compra dos bilhetes. Fui recebido por uma senhora a quem solicitei bilhetes para duas sessões – não faço a coisa por menos, e ademais o preço das viagens de e para o Porto está cada vez menos simpático – e, para minha surpresa, a tal funcionária não me perguntou imediatamente se queria pipocas e uma coca-cola ou uns nachos e uma fanta de ananás para me manter ocupado durante a sessão. Pior: descobri depois que não vendem esse tipo de produtos, nem sequer gelados Ben & Jerry!

Desconsolado e já preenchido pela suspeita de que a coisa não correria da melhor maneira, entrei na sala e procurei um lugar. Digo “procurei”, e foi mesmo isso que fiz, obrigado a vasculhar por um assento de entre os disponíveis uma vez que não fizeram o obséquio de escolher o lugar por mim (e acho que a senhora a quem comprei os bilhetes nem lhe fez menção, pardeus).

Entretanto, já sentado e preparado para colocar os pés no assento da frente (o que não fiz com medo de atingir na cabeça o casal de ar muito respeitável que lá se encontrava), qual não foi o meu espanto quando, à hora marcada da sessão, as luzes se apagaram e começou o filme. Assim mesmo, sem quê nem pra quê, sem cinco minutos de publicidade à Super Bock seguidos de cinco trailers seguidos de cinco minutos de publicidade à Sagres. Fiquei embasbacado com o sucedido, e julguei tratar-se de um qualquer erro do projecionista, mas quando na sessão seguinte se passou exatamente o mesmo, deduzi que isto é a vossa prática habitual!

O pior estava para vir, no entanto: é que os filmes, nem sei como dizê-lo… os filmes eram bons, pá. Uma pessoa a contar com uma sessão dupla daquelas de abstrair e sonhar e não pensar e esquecer os problemas e não sei que mais, e saem-lhe duas coisas gloriosas que não fazem mais do que dar que pensar. E para cúmulo, sem uma interrupçãozinha pelo meio para voltar a encher o garrafão de coca-cola que, não sei se já lhes disse, não têm à venda. Haja pachorra.

Com este tipo de condições, e a passar este tipo de filmes, e sem ice-tea de pêssego, depois não se queixem de que lhes falta povo nas salas. Esta gente não aprende, pá.

Com os melhores cumprimentos,

 

 

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Mais uma semana com zero atualizações (continuo a debater-me com o Acordo, mas por ora vai ganhando a modernização). Salvam-se os textos no jornal: desta sobre 10 Cloverfield Lane, esse manual de instruções sobre como não acabar um filme.